1) Como começou sua história na pesca submarina ?

Tudo começou com meu pai, quando eu tinha sete anos ele me deu uma máscara e uma nadadeira, com oito anos eu ganhei um Arbalete Cobra Mirage 50, minhas primeiras pescarias foram no flutuante da balsa em Ilhabela, e assim começou a minha história na pesca sub. 

 

2) Qual o seu tipo de pesca favorito e que profundidade se sente confortável em pescar ?

Gosto de pescar desde os pequenos marimbas até as espécies maiores, procuro ser completo na questão “pescar os peixes”, mas eu amo pescar Caranha, fazer emboscadas, ver ela se aproximar, a curiosidade desse peixe, o olhar direto e desconfiado, a explosão que emite com sua calda atinge nosso interior. Todas essas coisas e mais faz dessa pescaria a minha favorita. Me sinto confortável em pescar até 25 metros, principalmente quando é pesca de Garoupa, quando vou pescar abaixo dessa profundidade estou sempre em alerta.

 

3) Com qual frequência você pratica a pesca submarina? Pratica algum outro esporte ?

Dificilmente estou fora da água, procurou pescar todos os dias em qualquer situação, mar calmo, mar agitado, água limpa ou suja. Outro esporte que prático é o nado equipado com máscara e nadadeira, e amo surfar.

 

4) Qual foi o seu maior peixe e captura mais profunda ?

Já capturei muitos peixes grandes, como Garoupa, Caranha, Biju Piras e outros. As Caranhas foram os maiores peixes que capturei, peguei 5 com o mesmo peso de 52 kg em dias diferentes é claro, e muitas outras que se aproximaram deste peso, tive muitas capturas profundas em plataforma, no azul e em pedras isoladas, mas vou falar de uma captura recente que fiz e com plateia, foi na Bahia em um veleiro afundado a 38 metros de profundidade, ficamos 5 dias nesse local e capturei alguns peixes dentro do veleiro. Tirei do porão deste veleiro um dos badejos que lá estava de quase 30 kg.

 

5) Qual a sua idade e quais títulos você destacaria na sua carreira ?

Tenho 32 anos e tive muitos momentos bons com os colegas de competições, os títulos que destacaria foram 3 vezes campeão brasileiro por equipes, e campeão brasileiro individual em 2009.

 

6) Você se afastou das competições durante 7 anos, quais são seus planos para o futuro no esporte ?

Atualmente não tenho planos, pretendo ser aceito pela APPS (Associação Paulista de Pesca Subaquática) e também CBCS (Confederação Brasileira de Caça Submarina) e então voltar as competições e começar a pensar sobre o futuro nesse esporte que tanto amo.

 

7) Atualmente você possui algum patrocínio ? Falta apoio no esporte ?

Sim: Rob Allen e Onda Esportes. No nosso esporte falta apoio e compreensão. As pessoas acham que esse esporte é superagressivo e muitos deixam de nos apoiar por este motivo, não entendem que é uma pesca seletiva, onde você tem que tentar aproximação ao peixe para então escolher um, apenas um para capturar em um pequeno tempo que o teu corpo te permite ficar sem respirar. Não existe pesca mais seleta do que essa e menos agressiva, se muitos entendessem isso teríamos apoio sobrando, eu acredito!

 

8) Já fazem muitos anos que o Brasil não vence um mundial de pesca submarina, o que está faltando para Seleção Brasileira voltar a vencer ?

O nome já diz o que está faltando “Uma seleção”. Temos muitos atletas conhecidos e aqueles que muitos não conhecem, fazer uma seleção em vários estados, dar uma garimpada no Brasil e também investir mais nesses atletas já selecionados, já que a maioria desses campeonatos mundiais não são no Brasil. Enviar esses atletas com antecedência para os locais das provas, como fazem os outros países que se destacam nos mundiais.

 

9) Quem são seus ídolos no esporte ?

Sou conhecedor da palavra de Deus e não tenho ídolos, mas tenho pessoas que admiro como, Paolo Angeloni, Tarsio Storace, Nicolas Dedini e Christopher Ananiadis, todos pescadores com excelência.

 

10) Nos últimos anos aumentou muito o número de acidentes na pesca submarina no Brasil, na sua opinião quais são os principais fatores causadores deste grave problema ? Você já sofreu algum acidente ?

Quem mergulha sabe o perigo que é um intervalo entre um mergulho e outro devido aos barcos que navegam e que não respeitam as boias de sinalização, apesar dos equipamentos que existem e forma de sinalização, como bandeira, barco de apoio, gritos e gestos, ainda sim tudo isso quase sempre é em vão, fica difícil chamar atenção de barcos que navegam distraídos.

Na minha opinião deve ser feito campanhas de sensibilização e prevenção, advertindo para as distancias mínimas que devem ser respeitadas. A maioria das pessoas que navegam sabem o que é uma boia de mergulho e o que é uma bandeira com uma faixa branca na diagonal. Devemos fazer essas campanhas em marinas, praias, fazer pequenos adesivos para barcos e quiosque e também divulgações em redes sociais. Nunca sofri acidentes mergulhando e nunca apaguei, pois respeito os meus limites.  Mas já fui surpreendido umas duas ou três vezes com minha boia enrolado na hélice de embarcações que passavam despercebidas esse é o maior perigo no litoral. Já vi do fundo olhando para cima muitas embarcações passarem em cima de mim ou bem perto, por isso acho que devemos nos esforçar para divulgar esta questão.

 

11) Você sempre viveu e continua vivendo na famosa Ilhabela em SP, você considera o local privilegiado para a prática do esporte ? É possível mergulhar o ano todo na ilha ?

Nasci e continuo aqui, e minha família quase toda se encontra em comunidades isoladas pesqueiras e em locais muito privilegiado para a pesca submarina. Sim é possível mergulhar o ano todo e em algumas estações se pesca na espuma e em outras por completo.

 

12) Ilhabela é muito conhecida pelas suas lindas praias, cachoeiras, mata atlântica, e etc, como está a situação da sua fauna marinha, o peixe está muito escasso ?

Ao meu ver a situação aqui da fauna marinha é prejudicada pela pesca industrial, os barcos de grandes indústrias vem para essas águas e cercam os comediu (pequenos peixes), que servem de alimentos para todo esse território, não somente desta maneira mais também pescam com barcos de parelhas, dois barcos arrastando uma só rede, um em cada ponta arrastando e levando tudo o que estiver pela frente.

Com relação as costeiras da ilha conheço como poucos conhecem, escasso eu não diria, mas está havendo uma diferença em comparação a anos anteriores, continuo a apontar sempre a indústria como a culpada desta mudança. Faço parte do conselho dos Caiçaras Tradicionais, e do projeto Tribuzana e tenho visto a preocupação de muitos moradores a esse respeito, nos todos aqui sabemos que se está havendo uma diferença nessas águas não é por culpa das pequenas redes de pescadores locais ou pescadores de linha e veranista, mas sim da pesca desenfreada da indústria com seus barcos enormes.

 

13) Conte-nos uma pescaria inesquecível …

Pescaria inesquecível tenho muitas para contar, muitas mesmo, mas vou contar uma que ficou gravada em meu coração. Meu pai e alguns amigos marcaram uma pescaria e me convidaram para que fosse mergulhar em quanto eles pescavam de linha.

Fomos para Ilha de Buzios aqui na Ilhabela, chegamos lá por volta das 12:00 com uma traineira grande que alugamos, me aprontei e quando foi as 13;00 eu estava pronto para entrar na água, quando fui entrar o barqueiro sem me conhecer, disse a todos  que ali não tinha peixe, que era um lugar perigoso e que as ondas estavam grande, quando ele terminou de falar os amigos do meu pai e meu pai começaram a rir muito pois o barqueiro não sabia que ali estavam caiçaras tradicionais, com grande conhecimento de mar e tempo, daí meu pai disse em voz alta “Ele não conhece meu garoto!".

Pedi para o meu pai não deixar ele mudar o barco de lugar, pois iria voltar umas 20:00 da noite porque queria pegar umas lagostas também e fui para o mar, quando retornei vi que o barco estava me procurando, era umas 19:30, dei o sinal com a lanterna e eles se aproximaram, chegando no barco perguntei para o meu pai:

- Porque deixou ele sair com barco?

Meu pai me respondeu “ o homem aqui ficou preocupado e agitado, foi logo puxando a âncora e saindo atrás”.

Eu cheguei para o barqueiro e falei:

- O senhor está preocupado? Então puxa a minha boia.

Quando ele puxou a boia ali estava a contradição do que ele mesmo disse, capturei 2 sernambiguara acima de 15kg cada uma, 1 olho de boi de 19kg, 1 xaréu  branco de 9 kg, 1 sargo de 5kg, 2 bicudas e 5 cavalas de 5 a 8 kg.

Foi uma festa, comemoramos muito e vi meu pai orgulhoso, isso sim pra mim foi inesquecível.

 

14) Você tem o nome de um peixe como seu segundo nome, por que ?

Esse apelido não sei ao certo se é pelas capturas de Caranha ou pelo meu sorriso enorme, só sei que gosto !

 

15) Qual a sua profissão ?

Sou pescador Profissional.

 

16) Fale um pouco sobre o projeto Garoupa desenvolvido em Ilhabela …

O projeto Garoupa é um projeto de iniciativa privada chamada Rede Mar Alevinos, cujos donos (Claudia Kerber e Pedro dos Santos) iniciaram os estudos a 11 anos atrás, onde eu mesmo ajudei na captura dos primeiros exemplares de Garoupas, que vieram a tornar-se os reprodutores. Foi um trabalho pioneiro que passou por diversas dificuldades principalmente à adaptação dos animais ao cativeiro.

Após vários anos de pesquisa sobre a espécie, seu comportamento, alimentação, reprodução e desenvolvimento, o laboratório conseguiu estudos muito importantes que visam contribuir para sua preservação e comercialização para fins de aquicultura, diminuindo assim a pressão sobre os estoques naturais.

A Rob Allen, Onda Esportes, APPS (Associação Paulista de Pesca Subaquática), Brasil Skin Diver e eu, estamos estudando a possibilidade de tornar viável a soltura de alguns destes filhotes anualmente, para o repovoamento da espécie, temos isso como prioridade, pois visamos a preservação do meio ambiente.

 

17) Alguns “especialistas” dizem que a Garoupa nasce fêmea e apenas alguns poucos exemplares de uma determinada região se tornam machos na fase adulta para posteriormente se acasalar, isso procede ?

A Garoupa é um peixe da família dos serranídeos, como o Badejo, Mero e Cherne que são espécies comercialmente conhecidas. A maioria ocorre em ambientes costeiros, são animais topo de cadeia e extremamente importantes para o equilíbrio do ecossistema. São hermafroditas. Na fase inicial da vida são fêmeas, que se transformam em machos funcionais na fase adulta. Apresentam alta longevidade e atinge sua maturidade sexual aos 3 anos e sua inversão sexual geralmente ocorre entre 7 a 14 anos, variando de acordo com tamanho e habitat, portanto em algum estágio da vida adulta, todos os exemplares acabam mudando de sexo e se reproduzindo. Sua desova ocorre na primavera/verão, nesse período de desova que normalmente é bem definida, ocorrem as segregações populacionais reprodutivas.

 

18) Qual a sua opinião sobre as espécies proibidas pela portaria 445 ?

Na minha opinião e acredito que não só a minha a proibição permanente de uma grande quantidade de peixes baseado em estudo sem a participação da comunidade pesqueira é desrespeitosa é irresponsável, pois não avalia a situação de milhares de famílias que utilizam da arte para garantir seu sustento.

É necessário sim a preservação das espécies afim de garantir a sustentabilidade dos estoques pesqueiros, como os defesos e outros. Mas é necessário um maior planejamento dessas ações pois da forma como a portaria impõem a proibição por tempo indeterminado ao meu ver só incentiva a pratica da pesca ilegal.

 

19) Quais conselhos você daria para quem está começando na pesca submarina ?

Vão para dentro da água !

Ter o prazer de ir para o mar, seja em quaisquer condições, com água limpa ou não. Ver e aprender sem o objetivo de capturar peixes.

Ninguém nasce sabendo, o saber vem do contato com o mar de conseguir olhar para algo e compreender, tem coisas que não aprendemos com outros, devemos aprender só. As pessoas perguntam “ como é que faz para pegar tal peixe”, mas tem muitas coisas que não são naturais, que não são possíveis falar. “ Faz isso e pega o peixe”, o tempo e a prática se encarregam disso. O ideal para quem está iniciando é fazer um curso de pesca sub e Apneia, aprende-se muito e evita-se muito, procurar pescar com pessoas diferentes que saibam mais do que elas, não é fundamental mas conhecer as provas de pesca sub (competições) pode ter um efeito explosivo na evolução de um pescador sub, isto porque terá mais contato com um número maior de pescadores. Tenho notado esta evolução na vida de alguns amigos que se envolveram nestas provas, pessoas que com 2, 3 anos de mergulho evoluíram notoriamente. Tem muitos pescadores que tem o rei na barriga e andam com o nariz em pé no meio dos pequenos e quando alguém mata um peixe exemplar, quer saber a todo o custo quem pescou, aonde foi, quem foi, local e hora, começa a se fazer de amigo para enganar. Quando tem o que querem, vão atrás de outro que lhe interesse mais, são talvez mais perigosos para os mais experientes do que para os iniciantes, que podem cair nas mãos de tais.

Temos que evitar esses tipos de pessoas !!! Quando pescarmos com colegas, se alguém nos pergunta de quem o peixe, o peixe é sempre nosso ! de outro modo ganharemos o desprezo dos colegas.

O pescador não está em guerra com os peixes, não quer matar todos e nem pescar com raiva ou desprezo. Os peixes são a nossa razão de viver, nos interessamos por ele e pelo mar e por tudo que tem nele. Estudamos, compreendemos e ajudamos a sua preservação. Se for capturar um peixe, sempre de espécie comestível, tratamos com respeito, não maltratamos, não jogamos peixes fora ou comemos ou oferecemos, completando da melhor maneira o ciclo de vida e de morte.

Se pretendemos que a pesca sub não seja vista como atividade agressiva, devemos nos esforçar, tanto novato como também os experientes, evitando algumas coisas como: postar foto com muitos peixes nas redes sociais, pescar em beira de praia com muito movimento, pescar peixe fora da medida. Devemos também respeitar as redes de pesca de pescadores locais e procurar manter-se distante daqueles que pescam de linha de mão e de varas, embarcados ou até mesmo nas costeiras.

Estes são alguns dos conselhos que devemos seguir, que aprendi e estou aqui repassando e acredito que dessa forma a nossa atividade será vista como uma atividade nobre.

 

20) Gostaria de deixar algum recado ?

Somos Seres Humanos e errar faz parte da nossa vida e aprendizado, o que não podemos fazer é permanecer no erro sendo ele individual ou coletivo ! Aproveito a oportunidade para pedir desculpas aos meus companheiros do esporte e confederação.

 

Apoio: https://www.ondasports.com.br/

WhatsApp: (12) 98153-3569